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27 de Maio de 2008
Projetos sustentáveis, fachadas sombreadas
Informativo AFEAL

A afirmação categórica feita pela professora Joana Gonçalves, do Labaut - Laboratório de Conforto Ambiental e Eficiência Energética do Departamento de Tecnologia da FAUFaculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, pode surpreender aqueles que responsabilizam exclusivamente as fachadas pela eficiência energética do edifício. Doutora em impacto ambiental de edifícios altos, ela ensina que a sustentabilidade da edificação remete para o projeto de arquitetura do edifício, e não só da fachada.

A maior eficiência energética dependerá, desde a orientação do prédio, até tudo o que está atrás da fachada, como a profundidade da planta e a configuração do layout interno. Prefiro colocar a questão como um projeto de arquitetura voltado ao desempenho ambiental e energético mais adequado para determinado clima, uso e eficiência. Pode-se chamar a isso de ambientalmente e energeticamente sustentável”, diz, acrescentando que “arquitetura sustentável deve ser entendida como a mais adequada para o clima, e que tem uma fachada pensada junto com o projeto de arquitetura”.

Raramente essa fachada vai ser algo simplificado, sem elaboração de projeto. Área de transição entre dois meios - dentro e fora -, onde acontecem fenômenos físicos, a fachada precisa ser projetada como tal. A professora observa que isto já vem ocorrendo no país, em casos específicos. “Não só como especialista na área de conforto e desempenho energético, mas como cidadã, diria que olhando a cidade de São Paulo hoje, em comparação com o que se fazia há alguns anos, houve uma evolução. Um bom exemplo é a adoção do vidro verde que é o melhor vidro, pois equilibra energia e luz, térmica e iluminação. Deixa passar mais luz, com menos calor pela pigmentação da cor”, observa Joana Gonçalves. É preciso, no entanto, “aproveitar o momento em que o Brasil tem mais recursos para construir e a nova tecnologia nacional que está em desenvolvimento, para fazer uma autocrítica e redefinir nossos modelos”.

Faz parte dessa busca o fim do uso dos vidros refletivos nas fachadas, como já ocorre em cidades européias, onde estão proibidos. “Vemos nas cidades brasileiras que não acabou a era dos vidros refletivos. Não recomendo sua utilização por duas razões. Eles escurecem mais do que barram o calor, exigindo maior gasto energético com iluminação artificial. É um contra-senso, pois temos um clima com muita luz para se trabalhar, sem falar no fato de que a iluminação artificial em excesso faz mal saúde. O outro aspecto é o conceito autoritário implícito no refletivo, porque vejo o mundo lá fora e ele não me vê. Por isso, como arquiteta e urbanista, sou contra os vidros refletivos”, ressalta, lembrando que, além disso, esse vidro afeta negativamente o desempenho dos edifícios do entorno, criando riscos de ofuscamento ao refletir a radiação.

Para Joana Gonçalves, o vidro ideal - que ainda não existe -, seria aquele que deixaria passar toda a radiação visível e nada dos raios infravermelhos. Mas, todo o vidro deixa passar tudo, de acordo com frações diferentes de partes dos espectros da radiação eletromagnética. “A radiação visível, quando passa, vira calor também, mas é antes de tudo iluminação”, diz.

Soluções como as fachadas duplas com cavidade de ar e o vidro Lowe foram projetados para climas temperados e frios. “Está em estudo na USP a fachada ventilada para latitudes como a nossa, considerando aspectos como abertura para a ventilação controlada, além da profundidade da cavidade. São questões que ainda não foram resolvidas para São Paulo. Não existem estudos técnicos sobre o que acontece dentro dessa fachada para contexto climático como o nosso. Estamos fazendo isso na USP, mas ainda não temos respostas afirmativas. Acredito, no entanto, que se o fluxo da ventilação da fachada ventilada for bem controlado, pode ajudar no desempenho do edifício. Se ela é mais eficiente do que as achadas de uma camada só, com a devida proteção solar, não sei, lembrando que a fachada dupla não dispensa a necessidade de proteção solar. Acho difícil uma fachada dupla ventilada ser muito melhor do que a de um bom vidro laminado, com sombreamento”, explica, ressalvando que a dupla ventilada vai exigir grandes investimentos em automação predial.

Na opinião da professora, o Lowe pode contribuir para o clima do país, porque ele atua na redução da temperatura radiante média interna, por baixar a emissividade do vidro. “O grande problema térmico do vidro é a transparência, e se não sombrear vai passar energia. E estamos falando de 1 mil w/m² em São Paulo, que é muita energia.
Contudo, não adianta ter o Lowe e não ter sombra, porque vai reduzir a emissividade do vidro temperatura superficial, mas vai continuar passando a energia do sol para o ambiente interno
”, alerta.


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