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26 de Janeiro de 2010
Riscos de Construções em encostas e prevenção
Ricardo Julião

Projetar casas e outros tipos de edificações em encostas – superfícies inclinadas que delimitam áreas elevadas, como o declive de uma serra, um monte ou uma colina – é uma tarefa delicada, que exige atenção especial, e  trabalho conjunto de três tipos de profissionais: arquitetos e engenheiros atuantes nas áreas de Mecânica dos Solos e Cálculo Estrutural.

 

Para projetos e construções nesse tipo de região devemos considerar o clima do local, a topografia e as condições do solo. Percebo que a maioria dos locais aonde há desabamentos, principalmente nessa época do ano, quando as chuvas são mais constantes, são caracterizados por encostas que, na maioria das vezes, possuem um solo com pouca espessura de terra sobre uma base rochosa.

 

Impressionado com suas futuras casas de veraneio e a beleza natural de determinados lugares, por falta de informação, a maioria dos clientes não se preocupam com esse tipo de cuidado – analisar as condições do solo, a estrutura a ser projetada, e o clima do local aonde a edificação será construída. Mas, são justamente esses fatores que engenheiros das áreas de Mecânica dos Solos e Cálculo Estrutural se atentarão, evitando assim desastres e tragédias tão constantes nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro, em nosso país.

 

Um dos cuidados técnicos fundamentais para a construção em uma encosta ou em uma área próxima desta é a sondagem (estudo que proporciona um perfil sobre os diversos tipos de solos de determinado local) para averiguação sobre o tipo de solo em questão e as condições do lençol freático, considerando o que se pretende construir. E isso é uma responsabilidade do proprietário, do arquiteto, e dos engenheiros das áreas de Mecânica dos Solos e Cálculo Estrutural.

 

Decidida a realização da construção, faz-se necessário manter, o máximo possível, a topografia natural. Pensando nisso, acredito que uma das formas mais seguras para se construir nessas áreas é a edificação sobre pilotis, pois, dessa forma, evitamos alterar qualquer característica natural da região.

 

Um dos nossos projetos de casa de veraneio representa bem os princípios de respeito à natureza do “Ricardo Julião Arquitetura e Urbanismo”, sem se esquecer das necessidades do cliente. Refiro-me ao projeto de uma casa com mais de dois mil m2, localizada no litoral de Paraty, projetada respeitando a tradicional e característica arquitetura colonial da região.

 

Nesse caso, fez-se necessário um corte sutil no terreno, no início da inclinação do morro local, no fundo da casa. Nessa área, construímos um muro de contenção com tirantes de aço que penetram o terreno e, fixados firmemente no interior deste, garantem a contenção da terra que eventualmente pode se aproximar da propriedade. Além disso, vigas de concreto, robustas e resistentes, fixadas entre a casa e o muro de contenção, proporcionam a estabilidade da estrutura da propriedade. Já a base da casa foi desenvolvida, parte, em estacas que partem do solo (fundações profundas), e parte apoiada diretamente no solo (fundações diretas).

 

Todas essas soluções arquitetônicas foram desenvolvidas com base nas condições impostas pelo local e pelas necessidades do cliente. É importante ressaltar que não há uma regra para se construir uma casa em regiões litorâneas de risco – cada caso é um caso! Essa casa é apenas um exemplo da situação que colocamos em questão.
Também é importante lembrar que nem toda encosta significa necessariamente um risco para construções.

 

Geologicamente falando, regiões de formações mais antigas – “terrenos mais antigos” localizados, por exemplo, no continente europeu, como costas do Mar Mediterrâneo – são mais seguras e estáveis. Enquanto regiões mais de formações recentes, mais “jovens”, como a costa da Califórnia (nos Estados Unidos) e da Serra do Mar (no Brasil) são mais instáveis, fator que as tornam mais vulneráveis.

 

No Brasil, regiões próximas à cidade de Petrópolis, e áreas entre Angra dos Reis e Paraty, no Estado do Rio de Janeiro, são áreas de riscos constantes, em razão dos terrenos variáveis e vulneráveis às variações do tempo.
Em suma, percebemos que essa dualidade entre construção e encosta é uma questão de prevenção. Para ilustrar como a falta de prevenção é prejudicial às pessoas, tomamos como exemplo os maiores problemas das grandes cidades, como o crescimento constante e desordenado destas, que ocasionam  enchentes incontroláveis. O mesmo acontece com casas construídas em encostas, sem as devidas precauções.

 

O Brasil tem total potencial de prevenir desastres comuns nessa época do ano, como os que acontecem com frequência em áreas “sem leis”, também conhecidas como “favelas”. Temos uma engenharia civil, nas áreas de Mecânica dos Solos e Cálculo Estrutural, considerada uma das mais avançadas e eficientes do mundo, que não justifica tais desabamentos e desastres todo final e início de ano. O que explica tais desastres é o não acesso de muitos brasileiros a esses tipos de serviços. Ou seja, o problema não está na tecnologia e no conhecimento que temos para a prevenção desses acidentes, mas sim no “pagar por este serviço”.


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